segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Falta ao governo adotar um choque de capitalismo para combater ação nefasta de banqueiros e de empresários que agem contra o Brasil

Governo planeja corte de impostos e até campanha publicitária anticrise

Medida acertadíssima. Que deveria acrescentar um viés de vigilância governamental sobre o comportamento dos agentes financeiros envolvidos. De nada adianta ter a boa intenção, adotar os planos corretos e deixar a critério dos banqueiros e alguns empresários de plantão a aplicação das leis. É confiar que a raposa faminta vai aceitar a idéia de pegar apenas uma galinha no galinheiro, para dar chances aos demais parceiros a ter acesso aos ovos.

Leia mais: Última reunião ministerial do ano também discute manutenção de investimentos e crédito para a compra de máquinas.

Redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para setores produtivos em crise, como agricultura, automobilístico e da construção civil, manutenção do ritmo crescente dos investimentos em grandes obras, linhas de crédito para a compra de máquinas e equipamentos destinados à exploração e produção de petróleo e campanhas publicitárias para que as pessoas não deixem de comprar bens de consumo são as principais medidas que o governo estuda tomar para amenizar os efeitos da crise econômica no ano que vem.

As formas de o País enfrentar a crise serão o tema da última reunião ministerial do ano, marcada para hoje. Nela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedirá empenho de todos os auxiliares para tentar evitar que a crise venha a atrapalhar seus dois últimos anos de governo. Uma das formas de vencer a crise, na opinião do presidente, é manter os investimentos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - cerca de R$ 200 bilhões até o fim de 2010 -, irrigar o crédito e convencer as pessoas de que devem continuar comprando.

Pelos cálculos do governo, a perda de arrecadação estimada para o ano que vem será de no mínimo R$ 8 bilhões. Mas Lula quer que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) fique em 4%. Portanto, os ministros terão de oferecer ao presidente soluções que conciliem os ajustes necessários ao enfrentamento da crise e a oferta de dinheiro para os investimentos.

"O presidente acha que o governo precisa entender o que está acontecendo com essa crise e se preparar para agir, de maneira unificada, tendo em vista as medidas que vamos tomar", afirmou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. "Não vamos liberar mais recursos em 2009 para gastos correntes, mas manteremos os investimentos e queremos fomentar a produção. Não se trata de favor nem de dar dinheiro: é fazer a roda girar." O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, farão uma exposição sobre o cenário econômico e as providências tomadas até agora pelo governo para combater os efeitos da crise. "Estamos conseguindo superar os problemas e acreditamos que dá para manter uma taxa positiva de PIB com políticas anticíclicas", disse Mantega, numa referência à poupança feita em anos de crescimento para ser usada nos tempos de vacas magras.

O governo também fará todos os esforços para garantir os investimentos para os projetos incluídos no PAC. Na semana passada, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, disse que o desafio do governo será manter a taxa de crescimento dos investimentos em pelo menos de 10% em 2009, contra o ritmo de expansão deste ano, que está em 16%. (Leia mais no Estadão)

Banco do Brasil entra na corrida para liderar crédito

Falta um choque de capitalismo no governo. Os bancos oficiais, entre eles o Banco do Brasil e a Caixa, já deveriam ter há muito tempo agido de maneira agressiva no mercado oferecendo crédito, gerando concorrência entre os bancos, ocupando espaços. Infelizmente, parece que tem um acordo tácito entre os bancos oficiais e os banqueiros privados. É essa morosidade dos bancos oficiais que dá espaço, como já comentamos, para que os banqueiros fiquem deitados em berço esplêndido recheado de dinheiro governamental.

Leia mais: Duas semanas após a fusão Itaú/Unibanco, o Banco do Brasil fechou finalmente a compra da paulista Nossa Caixa e entrou para valer na corrida de consolidação do sistema financeiro nacional, acirrada no final do ano passado com a compra do Banco Real pelo Santander. Em jogo, está a liderança do mercado de crédito que mais cresce no mundo.

Para fechar negócio, o BB concordou em pagar R$ 5,386 bilhões por 71,25% das ações em poder do governo paulista, valor considerado elevado pelo mercado -acima inclusive do prêmio implícito pelo qual o Unibanco foi avaliado na fusão com o Itaú. O pagamento será em 18 parcelas corrigidas pela Selic (taxa básica de juros), a partir de março de 2009.

O governador José Serra afirmou que os recursos irão para a área social e ampliação do metrô e da rede de trens metropolitanos, além da constituição de um banco de desenvolvimento.

Para viabilizar a venda da Nossa Caixa, os governos federal (do PT) e estadual (do PSDB) passaram por cima de diferenças políticas e ideológicas e se juntaram contra o interesse dos bancos privados que exigiram publicamente um leilão de privatização, como acontecia nos anos 90.

As negociações se estenderam por seis meses e envolveram o trabalho de sete consultorias independentes. O negócio será um dos poucos a respeitar o direito integral de acionistas minoritários, que terão direito a 100% do prêmio pago aos controladores. Na sexta, as ações subiram 22,8%.

Com a compra, o BB será o banco com mais agências em SP, a mais importante praça do país. Até o ano passado, o BB estava em um modesto quarto lugar. Com a Nossa Caixa, o BB soma R$ 512,4 bilhões em ativos, mas não recupera a liderança do Itaú/Unibanco, que terão juntos R$ 575 bilhões.

O presidente do BB, Antonio Francisco de Lima Neto, disse que, sem a Nossa Caixa, a instituição estaria em posição desvantajosa no varejo bancário. (Mais informações na Folha)

Vida profissional é maior entrave, dizem negros

O racismo no Brasil é velado e se demonstra na falta de oportunidades para os negros seja no acesso a boa educação, seja na hora de receber salários iguais. Enquanto a gente ficar escondendo o racismo, não conseguiremos resolver o problema. Que afeta diretamente nossa democracia. Os negros merecem mais oportunidades que têm que ser claramente criadas, salários iguais, presença nas empresas e nos cargos de direção. Racismo se vence com luta permanente, com reeducação, com oportunidades em que os próprios negros tenham condições de manifestar, com altivez, seus pontos de vista, a partir de posições sociais de respeito seja nas estruturas públicas como nas privadas.

Leia mais e reflita: Pretos e pardos estão excluídos de postos de elite e ganham menos que brancos quando realizam a mesma função.

A carreira de Eudes Freire na medicina principiava quando ele dava plantão em um hospital de Caieiras (SP), lá se vão duas décadas. Havia quem se dirigisse a ele, tratando-o por enfermeiro, e perguntasse pelo "doutor". Um dia adentrou um menino de uns sete anos, que ao dar com o homem exclamou: "Pai, o médico é preto!".

O espanto não era para menos: o garoto se habituara a ser atendido por brancos.

Ainda hoje, os profissionais autodeclarados pretos e pardos correspondem a meros 9,7% dos médicos no Brasil, de acordo com o IBGE. A exclusão só é maior entre dentistas, com presença reduzida a 8,6%.

No novo levantamento Datafolha, 48% do total de entrevistados afirmaram que não conhecem médico negro -51% desconhecem sequer um professor universitário negro.

Não é à toa que, entre aqueles que se atribuíram cor preta ou parda, 55% responderam ao Datafolha que o principal problema enfrentado pela população negra é a "discriminação no trabalho - dificuldades para obter emprego". Em 1995, essa era a opinião de 45%.

A impressão sobre os obstáculos no trabalho se assenta em base factual. Em um ranking com as 509 ocupações do Censo de 2000, o IBGE constatou que em 92% delas o rendimento dos brancos era maior. Em 2007, um advogado que se declarou branco ganhou a média mensal de R$ 2.911; um pardo, R$ 2.304; um preto, R$ 2.243.

As diferenças se sobressaem em estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e da OIT.

Em 2006, o índice de desemprego de homens brancos no país foi de 5,6%. De homens negros (no relatório, o conjunto de pretos e pardos), 7,1%. Somando os sexos, anotaram os pesquisadores, "a diferença em relação aos brancos se ampliou justamente após 1999, quando o mercado de trabalho [...] se tornou mais favorável".

Essa é uma hipótese para a ascensão, no Datafolha, do item "discriminação no trabalho". Outra: em 2006, a taxa de informalidade de trabalhadoras brancas foi de 47,4%. De trabalhadoras negras, 62,7%.

Fusca x BMW — Os números ganham vida no cotidiano: "Eu tenho que me esforçar muito mais", diz o clínico e fisiatra Eudes Freire, 47, aquele cuja cor causou espécie ao menino. "Um erro do negro vale dez. E não só na medicina."

"No ensino médio, tirei a nota máxima numa matéria, e a professora falou: "Negro não pode tirar a nota máxima". Ela baixou a minha nota na frente de todo mundo. Aí um colega branco que hoje é advogado me defendeu: "Então não assisto à aula, a senhora está errada"."

Sua primeira faculdade foi de enfermagem. "Havia uns quatro negros em 35 alunos." Na medicina, "dois em 60".

No ensino de elite, evidencia-se a disparidade de perspectivas. Entre 369 aprovados para medicina e ciências médicas no vestibular Fuvest 2008, só um (0,3%) afirmou ter a cor preta -dois se disseram indígenas.

"Pela formação, um negro não teve a oportunidade de medir forças igualmente", diz o médico Eudes. "É como um estar dirigindo um Fusquinha e outro um BMW." A assimetria produz cenários como o hospital municipal do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, onde Eudes Freire trabalha.

Os 35 mil pacientes atendidos por mês têm a cor do Brasil -ou seja, todas. Quem os atende, contudo, são médicos na esmagadora maioria brancos ou de ascendência oriental.

O cabeleireiro Sergio Luis da Silva Junior, especialista em cabelo black, acorreu ao hospital por um mal-estar. Ele nunca foi atendido por médico de "pele escura ou cabelo crespo".

A cor dos médicos não difere da predominante nas redações de jornal. O país que concebe craques como Pelé nunca foi de dar vez a técnicos negros. De cada 100 advogados, só 17,3 se atribuem cor preta ou parda.

Direito, com 396 alunos, é um dos três cursos da Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, em São Paulo. A Unipalmares tem cerca de 1.800 estudantes -88% se dizem negros. A instituição se propõe a reunir "negros e brancos em proporções significativas".

A pluralidade de cores nos seus corredores contrasta com a vista em um salão do Palácio da Justiça, praça da Sé, em uma tarde do começo do mês. Ali, reuniam-se 51 desembargadores da Seção de Direito Público do Tribunal de Justiça. Todos no recinto aparentavam ser brancos. Menos o funcionário que abria a portinhola para a passagem dos magistrados. (Leia mais na Folha)

Bancos mostram que não estão à altura do que o país precisa

Na entrevista do ministro Paulo Bernardo o que já afirmávamos há meses. É uma pena só agora se constatar, publicamente, a situação, que temos certeza o governo já sabia antes.

Leia mais: O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) em entrevista à Folha de S.Paulo:

O governo voltou a adotar um tom otimista em relação à crise, mas os dados da economia real mostram que o Brasil será muito afetado. A avaliação do governo sobre a crise não está equivocada?

PAULO BERNARDO - A crise é extremamente preocupante. Não há, de fato, efeito no Brasil além do problema do crédito, que é grave. E estamos tomando medidas para destravar isso. Ainda não houve problema fora do sistema financeiro. Basta ver os números. A indústria cresce a 6,7% ao ano, segundo o último dado, de setembro. O do comércio saiu anteontem: 9,4%.

Mas esses são dados do retrovisor...

BERNARDO - Você tem de dizer qual é o dado do futuro, porque aí vamos entrar nas profecias...

Não é profecia. Há montadoras dando férias coletivas, alta na inadimplência de veículos. Há dados que já mostram efeitos negativos na economia real...

BERNARDO - Há indícios de que podemos ter problemas graves. O pior deles é não ter recursos para irrigar a produção. É a empresa não ter capital de giro, não ter como financiar sua produção para exportação, não ter recursos para vender no varejo. Agora, há indícios de que as coisas seguem funcionando.

Há necessidade de novas punições aos bancos para que eles voltem a emprestar?

BERNARDO - O sistema financeiro brasileiro está mostrando que não está à altura do que o país precisa.

Os bancos privados estão escondendo dinheiro?

BERNARDO - Claro que estão! O que eles fizeram? Fogueira com o dinheiro? Isso deve estar todo entesourado. Uma coisa é o pânico e a desconfiança do que realmente vai acontecer... se vai ter uma quebradeira de empresas e aí, por prudência gerencial, o banco não empresta. Ou pode estar esperando que o vizinho quebre para ele comprar na bacia das almas. Em qualquer hipótese, está claro que as empresas do setor produtivo não podem ver o sistema financeiro como um bom parceiro. Porque emprestar só se o cara provar que não precisa de nenhum centavo não é possível. (Leia mais na Folha)

Queda de preços e crise nos países ricos ameaçam superávit comercial

De novo nenhuma novidade. A não ser o fato que agora temos que avaliar a situação com o maior realismo possível, buscar oportunidades na crise, criar mecanismos para proteger nosso mercado interno e tomar muito cuidado com os empresários de plantão dispostos a tudo para manter seus ganhos aumentando preços. Se está sobrando mercadoria por falta de compradores no Exterior, o correto, a se valer a lei da oferta e da procura, seria que os preços internos caíssem. O que acompanhamos, contudo, é algo diferente: empresas sustentadas em monopólio e na indiferença do governo (que deveria impor contrapartidas para os financiamentos estatais) enfiam a mão no bolso do consumidor. Impunenmente.

Leia mais:

Exportação caiu 10,2% (EUA, Canadá e México) e 5,1% (Europa) e preço de commodities despencou 42%, em dólar

A combinação de fatores que jogou a favor da economia brasileira nos últimos anos está mudando de direção. Desde o início da década, o Brasil aumentou suas exportações e cresceu em ritmo acelerado, aproveitando o que os economistas chamam de superciclo das commodities, uma alta recorde do preço das matérias-primas e produtos básicos. Fazem parte desse movimento produtos em que o Brasil é forte, como soja, minério de ferro e aço.

Agora, a crise financeira global está migrando numa velocidade surpreendente para o ambiente produtivo. De julho à primeira quinzena de novembro, os preços das principais matérias-primas desabaram, em média, 42%, em dólar, segundo o índice CRB Reuters/Jefferies. As matérias-primas respondem por 65% das exportações.

E os exportadores estão sofrendo não só com a queda dos preços, mas com o encolhimento dos principais mercados. Estudo da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostra que os embarques para EUA, Canadá e México (grupo do Nafta) caíram 10,2%, de janeiro a setembro, em relação ao mesmo período de 2007. Para a Europa, a queda é de 5,1%, segundo o economista Fernando Ribeiro, da Funcex.

Ou seja, a recessão nos países ricos está provocando o cancelamento de encomendas das empresas exportadoras brasileiras. A situação só não é mais grave porque até aqui os países em desenvolvimento têm compensado parte dessas perdas. As vendas aos países do Mercosul, principalmente à Argentina, cresceram 12,4% e à região da Ásia, 5,7%. Somando-se todos os países, a queda do volume de exportações do Brasil foi de 0,8%, de janeiro a setembro, antes do pico da crise global.

Como o motor das exportações rateando, a economia brasileira perderá também o forte impulso que teve nos anos de prosperidade internacional. A queda nas vendas externas deve afetar a cadeia produtiva ligada a grandes exportadores, como a Vale, que já anunciou um corte de 10% em sua produção de minério no Brasil. (Leia mais no Estadão de domingo)

 

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